Porque a eletricidade brasileira sai de usinas que emitem muito pouco CO2. Em 2024, cada quilowatt-hora gerado na rede nacional emitiu em média 54,5 gramas de CO2, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Na média da União Europeia, a estimativa da Agência Europeia do Ambiente para o mesmo ano é de 187 gramas. Na Polônia, onde o carvão ainda gera mais da metade da eletricidade, são 554 gramas.
Fizemos a conta com um BYD Dolphin Mini, que gasta 10,8 kWh a cada 100 km pela etiqueta do Inmetro. A energia que ele usa para rodar 1 km corresponde a cerca de 5,9 g de CO2 no Brasil, 20,2 g na média da UE e 59,8 g na Polônia. É o mesmo carro, com o mesmo consumo: só muda a tomada.
Uma ressalva: “Europa” aqui é a média da UE. Alguns países europeus, como Suécia e França, têm eletricidade ainda mais limpa que a nossa. Mostramos todos os números abaixo, com o ano de cada um.
De onde vem a eletricidade do Brasil
O Balanço Energético Nacional, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mostra que 86,8% da eletricidade do Brasil veio de fontes renováveis em 2025. Para comparar, a própria EPE cita, com dados da Agência Internacional de Energia, 35,4% nos países da OCDE (2024) e 30,6% na média mundial (2023).
Esta é a divisão da oferta de eletricidade do país em 2025:
| Fonte | Participação em 2025 |
|---|---|
| Hidráulica | 51,2% |
| Eólica | 14,9% |
| Solar | 11,4% |
| Biomassa (bagaço de cana, lenha, licor preto e outras) | 8,4% |
| Gás natural | 7,5% |
| Carvão e derivados | 2,2% |
| Nuclear | 2,0% |
| Derivados de petróleo | 1,5% |
| Eletricidade importada | 0,9% |
As hidrelétricas seguem como a base, e eólica e solar já somam 26,4% da geração, segundo a EPE. Carvão e derivados ficam em 2,2%.
Na União Europeia, o retrato é outro. Pelos dados do Eurostat para 2024, renováveis e biocombustíveis responderam por 47,1% da produção bruta de eletricidade do bloco, e o carvão por 9,6%. Na Polônia, o carvão gerou 54,2% da eletricidade, e renováveis e biocombustíveis, 30,5%.
Quanto CO2 sai de cada kWh
A porcentagem de renováveis ajuda a entender, mas o número que importa para o carro elétrico é outro: o fator de emissão, que diz quantos gramas de CO2 foram emitidos para gerar cada kWh.
No Brasil, o MCTI calcula esse fator para o Sistema Interligado Nacional (SIN), a rede elétrica interligada do país. Ele faz a média das emissões de todas as usinas que geraram energia no período. Nas palavras do ministério, se todo consumidor multiplicasse a energia que gastou por esse fator, a soma daria as emissões do sistema elétrico. É exatamente o uso que fazemos aqui.
Na Europa, a Agência Europeia do Ambiente (AEA) publica um indicador parecido para cada país e para a média da UE:
| Lugar | g de CO2 por kWh | Ano e fonte |
|---|---|---|
| Suécia | 7 | 2024, AEA (estimativa) |
| França | 43 | 2024, AEA (estimativa) |
| Brasil | 54,5 | 2024, MCTI |
| Espanha | 129 | 2024, AEA (estimativa) |
| Média da UE | 187 | 2024, AEA (estimativa) |
| Alemanha | 298 | 2024, AEA (estimativa) |
| Polônia | 554 | 2024, AEA (estimativa) |
Os valores europeus de 2024 são uma estimativa preliminar da AEA, que mede em CO2 equivalente (soma outros gases de efeito estufa, convertidos para CO2). O fator do MCTI conta só o CO2. Por isso, mais abaixo mostramos também o número brasileiro em CO2 equivalente, que continua muito abaixo da média europeia.
A eletricidade brasileira emite cerca de 3,4 vezes menos que a média da UE e cerca de 10 vezes menos que a polonesa. Mas Suécia (7 g) e França (43 g) ficam abaixo de nós. Pela AEA, Lituânia, Luxemburgo e Finlândia também tiveram fator menor que o brasileiro em 2024, e a Áustria praticamente empatou (55).
A conta: o mesmo Dolphin Mini em três tomadas
O BYD Dolphin Mini GL consome 0,39 MJ/km na tabela do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV 2026), o que dá 10,8 kWh a cada 100 km. É o mesmo número que usamos no guia de quanto custa carregar um carro elétrico em casa.
Para ver o efeito de outras escolhas, aplicamos o mesmo cálculo a outros fatores:
| Fator usado | g por kWh | g por km do Dolphin Mini |
|---|---|---|
| Brasil, MCTI 2025 | 46,1 | 5,0 |
| Brasil, MCTI 2024 | 54,5 | 5,9 |
| Brasil, EPE 2025 (CO2 equivalente) | 67,4 | 7,3 |
| Brasil, ICCT, ciclo de vida da eletricidade (média projetada 2023 a 2044) | 83 | 9,0 |
| Média da UE, AEA 2024 | 187 | 20,2 |
| Alemanha, AEA 2024 | 298 | 32,2 |
| Polônia, AEA 2024 | 554 | 59,8 |
Por que os números brasileiros não batem entre si
Quem pesquisa encontra mais de um número oficial para o Brasil. Eles não se contradizem: medem coisas diferentes.
- MCTI, 54,5 g por kWh em 2024: só CO2, só as usinas do Sistema Interligado Nacional, média do que foi gerado no ano.
- EPE, 67,4 kg de CO2 equivalente por MWh em 2025 (o mesmo que 67,4 g por kWh): conta outros gases de efeito estufa e segue a metodologia do Balanço Energético Nacional. No guia sobre poluição citamos o número de 2024 do mesmo balanço; aqui usamos o de 2025, o mais recente.
- ICCT, 83 g de CO2 equivalente por kWh: é o número usado no estudo de ciclo de vida que citamos no guia sobre poluição. Ele soma as emissões de construir as usinas e de extrair o combustível, acrescenta 16% de perdas na transmissão e na distribuição e faz a média projetada da matriz de 2023 a 2044, a vida útil de um carro vendido em 2023.
Com qualquer um dos três, o resultado é parecido: o kWh brasileiro emite menos da metade do que emite o da média europeia de 2024. Com o fator do ICCT, que é o mais completo e por isso o mais alto, a energia do Dolphin Mini fica em 9,0 g por km, ainda menos da metade dos 20,2 g da média da UE. E o indicador da AEA considera só as emissões da produção de eletricidade, sem construção de usinas nem perdas na rede.
O fator muda ao longo do ano e de um ano para outro
O fator brasileiro varia bastante de mês para mês. Pelos números mensais do MCTI, em 2024 o fator foi de 19,5 g por kWh em abril e de 112,7 g por kWh em outubro. Para o Dolphin Mini, isso dá de 2,1 g a 12,2 g de CO2 por km, dependendo do mês.
Entre os anos também há variação. O fator médio do MCTI foi de 38,5 g por kWh em 2023, 54,5 g em 2024 e 46,1 g em 2025. O maior valor anual da série, que começa em 2006, foi o de 2014: 135,5 g por kWh. Mesmo nesse pior ano, o Brasil ficou abaixo da média da UE de 2024 (187 g).
Em 2025, a EPE registrou queda na participação de renováveis, de 88,2% para 86,8%, por causa de menos geração hidráulica e de mais geração a gás natural, que cresceu 22,7% no ano. No mesmo ano, as gerações eólica e solar cresceram.
A Europa também está ficando mais limpa
A distância diminuiu nos últimos anos. Pela AEA, o fator médio da UE caiu de 258 g por kWh em 2022 para 207 g em 2023 e 187 g em 2024. A agência estima que gerar 1 kWh emitiu, em 2024, 9% menos que em 2023 e 40% menos que uma década antes, com menos carvão e mais renováveis. A Polônia também caiu, de 683 g em 2022 para 554 g em 2024, e continua entre os fatores mais altos do bloco.
A vantagem brasileira vem de uma matriz apoiada em hidrelétricas e que segue somando eólica e solar: em 2025, pela EPE, a geração solar cresceu 24,7% e a eólica, 8,2%. Alguns países europeus já estão abaixo de nós, mas a média do bloco ainda emite mais que o triplo da nossa.
O que isso muda para quem mora no Brasil
Quando você liga o carro na tomada de casa, não escolhe de qual usina vem a energia: ela vem da mistura de usinas que está gerando naquele momento. Por isso usamos o fator médio, o que o MCTI indica para inventários de emissões. E por isso um elétrico rodando aqui leva vantagem sobre o mesmo carro rodando na média da Europa.
- Se você roda 1.000 km por mês com um elétrico compacto como o Dolphin Mini, a geração da energia emite perto de 6 kg de CO2 por mês com o fator de 2024. Com o fator mais completo do ICCT, cerca de 9 kg.
- Se a sua dúvida é sobre os anos ruins, o pior ano da série do MCTI (2014) ainda ficou abaixo da média europeia de 2024.
- Se você quer a comparação com o carro flex, ela precisa incluir a fabricação e o combustível. Fizemos isso no guia Carro elétrico polui menos?, com base no estudo do ICCT.
Valores conferidos em outubro de 2026.
Fontes e Referências
- MCTI, Sirene, Fatores de emissão de CO2 pela geração de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional, fator médio para inventários (planilha 2006 a agosto de 2026): gov.br/mcti
- EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Relatório Síntese, ano-base 2025: epe.gov.br
- Agência Europeia do Ambiente (EEA), Greenhouse gas emission intensity of electricity generation, country level (estimativa preliminar de 2024): eea.europa.eu
- Eurostat, Electricity and derived heat production by type of fuel (nrg_bal_peh), 2024: ec.europa.eu/eurostat
- Inmetro, Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), Tabela 2026, veículos elétricos: gov.br/inmetro
- ICCT, “Life-cycle greenhouse gas emissions of combustion engine and electric passenger cars in Brazil”, outubro de 2023: theicct.org
Consultas feitas em 4 de outubro de 2026.