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Matriz elétrica brasileira: por que o carro elétrico aqui é mais limpo que na Europa

Em 2024, cada kWh da rede brasileira emitiu 54,5 g de CO2, contra 187 g na média da União Europeia. Fizemos a conta de quanto isso pesa por quilômetro num carro elétrico.
Por Atualizado em 8 min de leitura
Gramas de CO2 da energia para um Dolphin Mini rodar 1 km em 2024: 5,9 no Brasil, 20,2 na média da UE, 32,2 na Alemanha e 59,8 na Polônia

Neste guia

Porque a eletricidade brasileira sai de usinas que emitem muito pouco CO2. Em 2024, cada quilowatt-hora gerado na rede nacional emitiu em média 54,5 gramas de CO2, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Na média da União Europeia, a estimativa da Agência Europeia do Ambiente para o mesmo ano é de 187 gramas. Na Polônia, onde o carvão ainda gera mais da metade da eletricidade, são 554 gramas.

Fizemos a conta com um BYD Dolphin Mini, que gasta 10,8 kWh a cada 100 km pela etiqueta do Inmetro. A energia que ele usa para rodar 1 km corresponde a cerca de 5,9 g de CO2 no Brasil, 20,2 g na média da UE e 59,8 g na Polônia. É o mesmo carro, com o mesmo consumo: só muda a tomada.

Uma ressalva: “Europa” aqui é a média da UE. Alguns países europeus, como Suécia e França, têm eletricidade ainda mais limpa que a nossa. Mostramos todos os números abaixo, com o ano de cada um.

De onde vem a eletricidade do Brasil

O Balanço Energético Nacional, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mostra que 86,8% da eletricidade do Brasil veio de fontes renováveis em 2025. Para comparar, a própria EPE cita, com dados da Agência Internacional de Energia, 35,4% nos países da OCDE (2024) e 30,6% na média mundial (2023).

Esta é a divisão da oferta de eletricidade do país em 2025:

Fonte Participação em 2025
Hidráulica 51,2%
Eólica 14,9%
Solar 11,4%
Biomassa (bagaço de cana, lenha, licor preto e outras) 8,4%
Gás natural 7,5%
Carvão e derivados 2,2%
Nuclear 2,0%
Derivados de petróleo 1,5%
Eletricidade importada 0,9%

As hidrelétricas seguem como a base, e eólica e solar já somam 26,4% da geração, segundo a EPE. Carvão e derivados ficam em 2,2%.

Na União Europeia, o retrato é outro. Pelos dados do Eurostat para 2024, renováveis e biocombustíveis responderam por 47,1% da produção bruta de eletricidade do bloco, e o carvão por 9,6%. Na Polônia, o carvão gerou 54,2% da eletricidade, e renováveis e biocombustíveis, 30,5%.

Quanto CO2 sai de cada kWh

A porcentagem de renováveis ajuda a entender, mas o número que importa para o carro elétrico é outro: o fator de emissão, que diz quantos gramas de CO2 foram emitidos para gerar cada kWh.

No Brasil, o MCTI calcula esse fator para o Sistema Interligado Nacional (SIN), a rede elétrica interligada do país. Ele faz a média das emissões de todas as usinas que geraram energia no período. Nas palavras do ministério, se todo consumidor multiplicasse a energia que gastou por esse fator, a soma daria as emissões do sistema elétrico. É exatamente o uso que fazemos aqui.

Na Europa, a Agência Europeia do Ambiente (AEA) publica um indicador parecido para cada país e para a média da UE:

Lugar g de CO2 por kWh Ano e fonte
Suécia 7 2024, AEA (estimativa)
França 43 2024, AEA (estimativa)
Brasil 54,5 2024, MCTI
Espanha 129 2024, AEA (estimativa)
Média da UE 187 2024, AEA (estimativa)
Alemanha 298 2024, AEA (estimativa)
Polônia 554 2024, AEA (estimativa)

Os valores europeus de 2024 são uma estimativa preliminar da AEA, que mede em CO2 equivalente (soma outros gases de efeito estufa, convertidos para CO2). O fator do MCTI conta só o CO2. Por isso, mais abaixo mostramos também o número brasileiro em CO2 equivalente, que continua muito abaixo da média europeia.

A eletricidade brasileira emite cerca de 3,4 vezes menos que a média da UE e cerca de 10 vezes menos que a polonesa. Mas Suécia (7 g) e França (43 g) ficam abaixo de nós. Pela AEA, Lituânia, Luxemburgo e Finlândia também tiveram fator menor que o brasileiro em 2024, e a Áustria praticamente empatou (55).

A conta: o mesmo Dolphin Mini em três tomadas

O BYD Dolphin Mini GL consome 0,39 MJ/km na tabela do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV 2026), o que dá 10,8 kWh a cada 100 km. É o mesmo número que usamos no guia de quanto custa carregar um carro elétrico em casa.

Para ver o efeito de outras escolhas, aplicamos o mesmo cálculo a outros fatores:

Fator usado g por kWh g por km do Dolphin Mini
Brasil, MCTI 2025 46,1 5,0
Brasil, MCTI 2024 54,5 5,9
Brasil, EPE 2025 (CO2 equivalente) 67,4 7,3
Brasil, ICCT, ciclo de vida da eletricidade (média projetada 2023 a 2044) 83 9,0
Média da UE, AEA 2024 187 20,2
Alemanha, AEA 2024 298 32,2
Polônia, AEA 2024 554 59,8

Por que os números brasileiros não batem entre si

Quem pesquisa encontra mais de um número oficial para o Brasil. Eles não se contradizem: medem coisas diferentes.

  • MCTI, 54,5 g por kWh em 2024: só CO2, só as usinas do Sistema Interligado Nacional, média do que foi gerado no ano.
  • EPE, 67,4 kg de CO2 equivalente por MWh em 2025 (o mesmo que 67,4 g por kWh): conta outros gases de efeito estufa e segue a metodologia do Balanço Energético Nacional. No guia sobre poluição citamos o número de 2024 do mesmo balanço; aqui usamos o de 2025, o mais recente.
  • ICCT, 83 g de CO2 equivalente por kWh: é o número usado no estudo de ciclo de vida que citamos no guia sobre poluição. Ele soma as emissões de construir as usinas e de extrair o combustível, acrescenta 16% de perdas na transmissão e na distribuição e faz a média projetada da matriz de 2023 a 2044, a vida útil de um carro vendido em 2023.

Com qualquer um dos três, o resultado é parecido: o kWh brasileiro emite menos da metade do que emite o da média europeia de 2024. Com o fator do ICCT, que é o mais completo e por isso o mais alto, a energia do Dolphin Mini fica em 9,0 g por km, ainda menos da metade dos 20,2 g da média da UE. E o indicador da AEA considera só as emissões da produção de eletricidade, sem construção de usinas nem perdas na rede.

O fator muda ao longo do ano e de um ano para outro

O fator brasileiro varia bastante de mês para mês. Pelos números mensais do MCTI, em 2024 o fator foi de 19,5 g por kWh em abril e de 112,7 g por kWh em outubro. Para o Dolphin Mini, isso dá de 2,1 g a 12,2 g de CO2 por km, dependendo do mês.

Entre os anos também há variação. O fator médio do MCTI foi de 38,5 g por kWh em 2023, 54,5 g em 2024 e 46,1 g em 2025. O maior valor anual da série, que começa em 2006, foi o de 2014: 135,5 g por kWh. Mesmo nesse pior ano, o Brasil ficou abaixo da média da UE de 2024 (187 g).

Em 2025, a EPE registrou queda na participação de renováveis, de 88,2% para 86,8%, por causa de menos geração hidráulica e de mais geração a gás natural, que cresceu 22,7% no ano. No mesmo ano, as gerações eólica e solar cresceram.

A Europa também está ficando mais limpa

A distância diminuiu nos últimos anos. Pela AEA, o fator médio da UE caiu de 258 g por kWh em 2022 para 207 g em 2023 e 187 g em 2024. A agência estima que gerar 1 kWh emitiu, em 2024, 9% menos que em 2023 e 40% menos que uma década antes, com menos carvão e mais renováveis. A Polônia também caiu, de 683 g em 2022 para 554 g em 2024, e continua entre os fatores mais altos do bloco.

A vantagem brasileira vem de uma matriz apoiada em hidrelétricas e que segue somando eólica e solar: em 2025, pela EPE, a geração solar cresceu 24,7% e a eólica, 8,2%. Alguns países europeus já estão abaixo de nós, mas a média do bloco ainda emite mais que o triplo da nossa.

O que isso muda para quem mora no Brasil

Quando você liga o carro na tomada de casa, não escolhe de qual usina vem a energia: ela vem da mistura de usinas que está gerando naquele momento. Por isso usamos o fator médio, o que o MCTI indica para inventários de emissões. E por isso um elétrico rodando aqui leva vantagem sobre o mesmo carro rodando na média da Europa.

  • Se você roda 1.000 km por mês com um elétrico compacto como o Dolphin Mini, a geração da energia emite perto de 6 kg de CO2 por mês com o fator de 2024. Com o fator mais completo do ICCT, cerca de 9 kg.
  • Se a sua dúvida é sobre os anos ruins, o pior ano da série do MCTI (2014) ainda ficou abaixo da média europeia de 2024.
  • Se você quer a comparação com o carro flex, ela precisa incluir a fabricação e o combustível. Fizemos isso no guia Carro elétrico polui menos?, com base no estudo do ICCT.

Valores conferidos em outubro de 2026.

Fontes e Referências

  • MCTI, Sirene, Fatores de emissão de CO2 pela geração de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional, fator médio para inventários (planilha 2006 a agosto de 2026): gov.br/mcti
  • EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Relatório Síntese, ano-base 2025: epe.gov.br
  • Agência Europeia do Ambiente (EEA), Greenhouse gas emission intensity of electricity generation, country level (estimativa preliminar de 2024): eea.europa.eu
  • Eurostat, Electricity and derived heat production by type of fuel (nrg_bal_peh), 2024: ec.europa.eu/eurostat
  • Inmetro, Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), Tabela 2026, veículos elétricos: gov.br/inmetro
  • ICCT, “Life-cycle greenhouse gas emissions of combustion engine and electric passenger cars in Brazil”, outubro de 2023: theicct.org

Consultas feitas em 4 de outubro de 2026.

Continue no capítulo 4: Sustentabilidade e Meio Ambiente

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