Sim. No Brasil, um carro elétrico emite bem menos gases de efeito estufa que um carro flex, mesmo contando a fabricação da bateria. Segundo um estudo do ICCT (Conselho Internacional de Transporte Limpo) que fez a conta do berço ao fim da vida útil, um elétrico compacto vendido em 2023 emite cerca de um terço do que emite um compacto flex abastecido com a mistura média de gasolina e etanol do país.
Há dois motivos. O elétrico gasta muito menos energia para rodar cada quilômetro. E a eletricidade brasileira vem, em sua maior parte, de fontes renováveis, como hidrelétricas, eólicas e solares. A bateria aumenta as emissões na fábrica, mas essa diferença fica pequena perto do que o elétrico deixa de emitir durante o uso.
O que entra na conta do “ciclo de vida”
Comparar só o escapamento seria injusto com o carro a combustão, porque o elétrico não tem escapamento. Por isso, o estudo do ICCT somou tudo o que um carro emite do começo ao fim:
- a fabricação do carro e da bateria;
- a produção da gasolina, do etanol ou da eletricidade;
- a queima do combustível, no caso do carro flex;
- a manutenção ao longo dos anos;
- no caso do etanol, o efeito indireto do uso da terra para plantar a cana.
O estudo considerou uma vida útil de 22 anos e 288 mil km rodados, com base em inventários do governo federal: a curva de sobrevivência da frota do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e a quilometragem anual do inventário de emissões veiculares do Ministério do Meio Ambiente. O resultado aparece em gramas de CO2 equivalente por quilômetro rodado ao longo de toda essa vida.
Os números: elétrico, flex com etanol e flex com gasolina
Para carros compactos vendidos em 2023, estas são as emissões no ciclo de vida, segundo o ICCT:
| Carro compacto | g CO2e por km | Em 288 mil km (cálculo nosso) |
|---|---|---|
| Elétrico | 55 | 15,8 toneladas |
| Elétrico, com uma troca de bateria | 67 | 19,3 toneladas |
| Flex só com etanol | 107 | 30,8 toneladas |
| Flex com a mistura média de gasolina e etanol | 155 | 44,6 toneladas |
| Flex só com gasolina | 186 | 53,6 toneladas |
Na comparação mais realista, com o flex usando a mistura média de combustível que os brasileiros colocam no tanque, o elétrico emite de 65% a 67% menos, dependendo do tamanho do carro. Mesmo no pior caso para o elétrico, com uma troca de bateria durante a vida útil, a vantagem continua entre 57% e 60%.
E a bateria? Ela não polui na fabricação?
Polui, sim. Fabricar a bateria exige muita energia e mineração de metais, e isso pesa na conta. No estudo do ICCT, a produção da bateria responde por 9,5 a 15,3 g de CO2e por quilômetro, dependendo do tamanho do carro.
Por isso o elétrico sai da fábrica “devendo” mais emissões que um carro a combustão. Essa diferença vai sendo paga a cada quilômetro rodado, porque o elétrico emite muito menos no uso. No estudo do ICCT, essa parcela da bateria é pequena perto do ganho do elétrico no uso, e ele termina a vida útil bem à frente.
O estudo considerou que a bateria dura mais que o próprio carro. Mesmo assim, simulou o caso de uma troca de bateria, que aparece na tabela acima: o total sobe de 55 para 67 g por km no compacto, ainda bem abaixo do flex.
Por que a eletricidade do Brasil faz tanta diferença
Um carro elétrico é tão limpo quanto a energia que o abastece. Se a eletricidade vem de usinas a carvão, a vantagem diminui. No Brasil, a situação é bem diferente.
- Em 2024, a matriz elétrica brasileira foi 88,2% renovável, segundo o Balanço Energético Nacional, do Ministério de Minas e Energia e da Empresa de Pesquisa Energética.
- Eólica e solar, juntas, chegaram a 24% da geração de eletricidade.
- O setor elétrico brasileiro emitiu 59,9 kg de CO2e para produzir cada MWh em 2024. Segundo o ministério, é cerca de quatro vezes menos que nos países europeus da OCDE e nos Estados Unidos, e até dez vezes menos que na China.
O estudo do ICCT resume os dois efeitos: o elétrico gasta cerca de três vezes menos energia por quilômetro que um carro a combustão comparável, e a eletricidade usada tem cerca de três vezes menos emissões por unidade de energia que a mistura de gasolina e etanol. Explicamos por que o elétrico aproveita tão bem a energia no guia Como funciona um carro elétrico.
E o etanol? Ele não é limpo?
O etanol de cana ajuda bastante. No estudo do ICCT, um flex rodando só com etanol emite 31% menos que usando a mistura média, e um flex só com gasolina emite 20% mais. Para quem tem carro flex hoje, preferir o etanol reduz bem as emissões.
Mas, mesmo rodando a vida inteira só com etanol, o flex compacto emite cerca do dobro do elétrico (107 contra 55 g por km). Além disso, o próprio estudo lembra que rodar a vida inteira só com etanol não representa o consumo médio da frota. Por isso a comparação principal usa a participação média de gasolina e etanol no mercado, a linha de 155 g por km.
E os híbridos?
O estudo também comparou híbridos do segmento médio:
- Híbrido convencional, com a mistura média de combustível: 134 g de CO2e por km, 14% abaixo do flex comum com a mesma mistura.
- Híbrido plug-in: 150 g por km, só 3% abaixo do flex com a mistura média. O estudo considerou que ele roda metade da distância na eletricidade e a outra metade com gasolina, porque não havia plug-in flex à venda.
- Elétrico do mesmo segmento: 52 g por km.
Mesmo um híbrido rodando a vida inteira só com etanol (97 g por km) emitiria 85% a mais que o elétrico do mesmo segmento abastecido com a eletricidade média do país, segundo o ICCT.
O que o estudo não mede
- Poluição local: o estudo trata de gases de efeito estufa, que afetam o clima. O elétrico também não solta gases de escapamento na rua, o que é bom para o ar das cidades, mas esse efeito não entra nos números acima.
- Data: o estudo é de 2023, com carros vendidos naquele ano e a projeção da matriz elétrica até 2044. Carros e matriz mudam com o tempo.
- Médias: os números são médias de cada segmento. Um carro específico pode ficar um pouco acima ou abaixo.
Resposta curta
No Brasil, o carro elétrico polui bem menos ao longo da vida: cerca de um terço do que emite um flex usando a mistura média de combustível, e metade do que emite um flex rodando só com etanol. A fabricação da bateria aumenta as emissões no começo, mas a eletricidade majoritariamente renovável do país e a eficiência do motor elétrico compensam isso com folga.
Se a sua dúvida também é de bolso, comparamos custo de compra, recarga, IPVA e revisões no guia Carro elétrico vale a pena?, e reunimos preço e autonomia dos modelos à venda em Carros elétricos à venda no Brasil.
Para continuar: por que a energia brasileira faz diferença, elétrico ou etanol, o que acontece com a bateria no fim da vida, carregar com energia solar e o que muda no ar das cidades.
Valores conferidos em outubro de 2026.
Fontes e Referências
- ICCT, “Life-cycle greenhouse gas emissions of combustion engine and electric passenger cars in Brazil”, outubro de 2023: theicct.org
- Ministério de Minas e Energia, Balanço Energético Nacional 2025 (ano-base 2024): gov.br/mme
Fontes consultadas em 04/10/2026.