Para rodar 1.000 km por mês com um BYD Dolphin Mini, o carro pede 108 kWh, e um sistema solar de cerca de 1 kWp gera isso em São Paulo. Em Fortaleza, onde o sol é mais forte, bastam 0,84 kWp. Pelo preço de referência de 2024, essa parte do sistema custaria R$ 3.018 e R$ 2.461.
Em 2026, essa energia deixa de custar uns R$ 119 por mês na conta de luz e passa a custar perto de R$ 14 a R$ 18, a parte do uso da rede (o Fio B) que a Lei 14.300 manda pagar sobre a energia compensada. Com o preço de um sistema de 4 kWp em 2024 e o Fio B sem impostos, o investimento voltaria em 2 a 2,5 anos. É um cenário otimista: sistema pequeno ou ampliação costuma ter outro preço por kWp, e com orçamento no dobro o prazo dobra. As premissas estão abaixo, para você trocar pelas suas.
Quanta energia o carro pede por mês
O Dolphin Mini GL gasta 10,8 kWh a cada 100 km, segundo a etiqueta do Inmetro, o menor consumo entre os elétricos do guia de quanto custa carregar um carro elétrico em casa. Com 1.000 km por mês, são 108 kWh. Com o kWh a R$ 1,10 (nossa estimativa com impostos), a recarga soma R$ 118,80 na conta de luz.
Se você roda menos, a conta encolhe na mesma proporção: 500 km pedem 54 kWh. Com outro carro, troque o 10,8 pelo consumo dele na etiqueta.
Quantos kWp de painel isso exige
Painel solar é vendido em kWp (quilowatt-pico), a potência dele em condição de laboratório. O que cada kWp gera depende do sol da cidade e das perdas do sistema.
O sol de cada cidade
O sol de cada lugar está no SunData, ferramenta do CRESESB (centro de pesquisa do Cepel) que usa a base do Atlas Brasileiro de Energia Solar, do INPE, feito com 17 anos de imagens de satélite. Consultamos dois pontos, com o painel voltado para o norte e inclinado no mesmo ângulo da latitude:
| Cidade | Média do ano (kWh/m² por dia) | Pior mês | Melhor mês |
|---|---|---|---|
| São Paulo | 4,65 | 4,12 (julho) | 5,22 (fevereiro) |
| Fortaleza | 5,70 | 4,92 (abril) | 6,22 (outubro) |
Esse número também se lê como “horas de sol pleno”: 4,65 equivale a 4,65 horas por dia de sol na intensidade de referência dos painéis. Fortaleza recebe cerca de 23% mais sol que São Paulo na média do ano.
As perdas do sistema
Há perda no cabo, no inversor, com sujeira no painel e com o calor. O Manual de Engenharia para Sistemas Fotovoltaicos do CRESESB diz que um sistema residencial bem ventilado e sem sombra chega a uma taxa de desempenho de 70% a 80% no Brasil. Usamos 75%, o meio da faixa.
É pouco painel: o sistema residencial que a EPE usa como referência de preço tem 4 kWp. Por isso faz mais sentido pensar no carro como um acréscimo ao sistema da casa do que como um sistema separado.
Quanto custa essa parte do sistema
A ANEEL não define preço de painel. A referência pública mais recente que lemos está no caderno de micro e minigeração distribuída do Plano Decenal de Energia 2035, da EPE. Com dados da consultoria Greener, ele mostra o preço final de um sistema residencial de 4 kWp: R$ 19.520 em 2022, R$ 14.720 em 2023 e R$ 11.720 em 2024. Dá R$ 2.930 por kWp.
Com esse valor, a parte do carro custa:
- São Paulo: 1,03 kWp × R$ 2.930 = R$ 3.017,90
- Fortaleza: 0,84 kWp × R$ 2.930 = R$ 2.461,20
Por que o carro carrega à noite e mesmo assim usa o sol
O carro costuma carregar à noite, quando o painel não gera nada. Isso não atrapalha, por causa do Sistema de Compensação de Energia Elétrica.
Durante o dia, a energia que a casa não usa vai para a rede da distribuidora. À noite, a rede devolve essa energia. A própria ANEEL descreve assim: a rede funciona como uma bateria. Na conta de luz, o que você injetou abate o que você consumiu. Se sobrar, a sobra vira crédito em kWh, que vale por 60 meses.
- O crédito é em kWh, não em reais. Se a tarifa subir, cada kWh guardado abate um consumo que ficou mais caro.
- A bandeira não pesa sobre a energia compensada. Pela Lei 14.300, a bandeira tarifária só incide sobre o consumo que sobra para faturar.
- A taxa mínima continua. Quem é atendido em baixa tensão, como as casas, sempre paga o custo de disponibilidade: o valor de 30 kWh (monofásico), 50 kWh (bifásico) ou 100 kWh (trifásico). O painel não a elimina.
Os créditos também cobrem as estações. Na nossa conta, o sistema de São Paulo gera 95,5 kWh em julho e 121 kWh em fevereiro; o de Fortaleza, de 93 kWh em abril a 117,6 kWh em outubro. A sobra de um mês cobre a falta de outro.
A Lei 14.300 e o Fio B: o que você paga em 2026
A tarifa tem uma parte que paga a energia e outra que paga a rede. Dentro da rede está o chamado Fio B: a remuneração dos postes, cabos e transformadores da distribuidora, a depreciação deles e o custo de operação e manutenção.
Antes da Lei 14.300/2022, cada kWh injetado abatia um kWh consumido por inteiro. Pelo artigo 27 da lei, quem pediu a conexão depois de 7 de janeiro de 2023 paga uma fatia crescente do Fio B sobre a energia compensada:
| Ano | Parte do Fio B paga sobre a energia compensada |
|---|---|
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 | 60% |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| A partir de 2029 | Regra do artigo 17 da lei, ainda sem valor definido |
O valor do Fio B depende da distribuidora. Nos dados abertos da ANEEL, a tarifa residencial convencional sem impostos traz:
- Enel SP (Grande São Paulo): Fio B de R$ 0,21208 por kWh, 26,9% da tarifa sem impostos.
- Enel CE (Ceará): Fio B de R$ 0,28371 por kWh, 40,4% da tarifa sem impostos.
Como o carro carrega à noite, toda a energia dele é compensada e paga essa fatia.
A conta completa em duas cidades
A conta abaixo é o cenário otimista, com estas premissas:
- Dolphin Mini GL, 1.000 km por mês, 108 kWh (etiqueta do Inmetro, sem perdas da recarga).
- Painel para o norte, inclinação igual à latitude, sem sombra, taxa de desempenho de 75%.
- Preço de R$ 2.930 por kWp (sistema de 4 kWp, 2024). Sistema pequeno ou ampliação pode custar mais por kWp.
- Recarga sem painel: R$ 118,80 por mês (kWh a R$ 1,10 com impostos).
- Fio B sem impostos. A conta mistura um valor com impostos (o que se deixa de pagar) e outro sem (o que se passa a pagar). Com os tributos, a cobrança do Fio B fica maior e a economia, menor: por isso o resultado é otimista.
- Sem juros, sem manutenção e sem troca de equipamento no período.
Fortaleza paga mais Fio B, mas precisa de menos painel, e o sol forte ganha a disputa. Como a fatia do Fio B sobe até 2028 e o preço real pode ficar longe da referência, testamos três cenários:
| Cenário | São Paulo | Fortaleza |
|---|---|---|
| Otimista: regra de 2026 (60% do Fio B), preço de referência | 28,7 meses | 24,5 meses |
| Regra de 2028 (90%) desde o início, preço de referência | 30,7 meses | 27,0 meses |
| Orçamento no dobro do preço de referência, regra de 2026 | 57,5 meses | 49,0 meses |
Com 90% do Fio B, a economia mensal cai para R$ 98,19 em São Paulo e R$ 91,22 em Fortaleza. Com o preço dobrado, o retorno vai para 4 a 5 anos. A regra a partir de 2029 ainda não tem valor definido e pode mudar essa conta. Para saber o seu prazo, divida o orçamento que receber pela economia mensal da sua distribuidora.
Projeto e instalação: quem pode fazer
Sistema solar ligado à rede é instalação elétrica de verdade, com inversor, proteções e pedido formal de conexão à distribuidora. O projeto e a instalação devem ficar com profissional legalmente habilitado, que assine e se responsabilize pela obra. Peça ao menos três orçamentos e confira se cada um informa a potência em kWp, a geração mensal estimada para o seu endereço e se inclui o pedido de conexão à distribuidora.
Se a ideia é também instalar um carregador de parede, vale planejar as duas obras juntas, com o mesmo eletricista qualificado olhando o quadro e o padrão de entrada. O guia de wallbox: preço e instalação mostra o que essa parte exige.
Vale a pena?
Pela nossa conta, tende a valer para quem tem telhado próprio sem sombra e roda todo mês. O carro pede pouco painel, e mesmo com o orçamento no dobro da referência o retorno fica em 4 a 5 anos. Se você já vai instalar energia solar na casa, a fatia do carro pode entrar no mesmo projeto e no mesmo pedido de conexão. A decisão, porém, sai do orçamento real, não da nossa referência de 2024.
Faz menos sentido para quem mora em apartamento sem telhado próprio, para quem tem sombra forte no telhado ou para quem roda pouco: com 500 km por mês, a economia cai para perto da metade, e um sistema menor tende a custar mais por kWp.
Há ainda o ganho que não aparece no bolso: ao longo do ano, o telhado injeta na rede a energia que o carro consome. No pilar sobre se o carro elétrico polui menos, mostramos por que, mesmo sem painel, o elétrico já emite menos no Brasil.
Valores conferidos em outubro de 2026.
Fontes e Referências
- Inmetro, Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV) 2026, veículos elétricos: consumo do BYD Dolphin Mini GL (0,39 MJ/km).
- CRESESB/Cepel, SunData v3.0, com base no Atlas Brasileiro de Energia Solar, 2ª edição (INPE/LABREN, 2017): irradiação diária média mensal de São Paulo e Fortaleza. cresesb.cepel.br
- CRESESB/Cepel, Manual de Engenharia para Sistemas Fotovoltaicos (2014), capítulo 6: horas de sol pleno, dimensionamento e taxa de desempenho. PDF
- EPE, PDE 2035, caderno “Micro e Minigeração Distribuída & Baterias Atrás do Medidor” (versão de 31/07/2025): preço final de sistema residencial de 4 kWp, dados Greener. PDF
- Lei nº 14.300/2022 (marco legal da micro e minigeração distribuída), artigos 13, 19, 26 e 27. planalto.gov.br
- ANEEL, Micro e Minigeração Distribuída (compensação, créditos de 60 meses, custo de disponibilidade). gov.br/aneel
- ANEEL, dados abertos, Componentes Tarifárias 2026: TUSD Fio B residencial da Enel SP (REH 3.596/2026) e da Enel CE. dadosabertos.aneel.gov.br
Consultas feitas em 5 de outubro de 2026.