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Elétrico ou etanol: qual emite menos no Brasil

No ciclo de vida, o elétrico emite cerca de metade do que emite um flex rodando só com etanol, segundo o ICCT. Veja de onde vem cada número, o papel do uso da terra e o que muda com o híbrido flex.
Por Atualizado em 10 min de leitura
Emissões de CO2 equivalente em um ano rodando 12 mil km, no ciclo de vida: elétrico 660 kg, híbrido só com etanol 1.164 kg, flex só com etanol 1.284 kg e flex só com gasolina 2.232 kg

Neste guia

O elétrico emite menos. No estudo de ciclo de vida do ICCT (Conselho Internacional de Transporte Limpo) para o Brasil, que soma fabricação, combustível e uso, um carro compacto elétrico fica em 55 g de CO2 equivalente por km. O mesmo tipo de carro flex rodando a vida inteira só com etanol fica em 107 g, cerca do dobro.

Isso não faz do etanol um vilão. O etanol de cana é o combustível líquido mais limpo à venda no país: pelas contas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cada unidade de energia do etanol hidratado emite cerca de um quarto do que emite a gasolina pura. O que dá vantagem ao elétrico é outra coisa: ele gasta muito menos energia por km, e a eletricidade brasileira também é limpa. Fizemos a conta de quanto cada cenário emite em 12 mil km por ano.

Por que o etanol de cana emite pouco

O etanol também solta CO2 pelo escapamento. A diferença é a origem do carbono: na gasolina, ele estava guardado no petróleo; no etanol, foi tirado do ar pela cana enquanto ela crescia. Por isso os estudos de ciclo de vida, como o do ICCT, não contam o CO2 da queima do biocombustível: ele é compensado pelo que a planta absorveu ao crescer.

Sobram as emissões de produção: adubo e diesel na lavoura, usina, transporte até o posto. A EPE calculou essas emissões do poço à roda para o ano-base 2024. Os valores abaixo vêm de uma nota técnica da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva que reproduz a conta da EPE, publicada no site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC):

Combustível g CO2e por MJ, do poço à roda
Gasolina A (pura, sem etanol) 87,4
Gasolina C com 30% de etanol anidro (E30) 72,53
Etanol hidratado (o “etanol” da bomba) 22,73
Eletricidade da rede nacional (SIN), com perdas na rede 21,3

O MJ (megajoule) é uma unidade de energia, então a tabela não depende do rendimento do carro. A EPE considera 79% de etanol de cana e 21% de milho na oferta de 2024. A gasolina comum vendida hoje é a E30: a mistura obrigatória de etanol anidro passou de 27% para 30% em 1º de agosto de 2025, segundo a ANP.

Por MJ, nessa conta da EPE, etanol e eletricidade quase empatam. A distância entre os carros aparece no consumo.

O que o RenovaBio mede: a nota de cada usina

O RenovaBio é a política nacional de biocombustíveis. A usina que adere preenche a RenovaCalc, calculadora oficial do programa, com dados da lavoura e da indústria; uma firma inspetora audita e a ANP publica o certificado, válido por 3 anos. Até fevereiro de 2026, 78% dos produtores de etanol autorizados pela ANP estavam certificados.

O resultado é a Nota de Eficiência Energético-Ambiental, em g de CO2e por MJ. Ela é a diferença entre a intensidade de carbono do combustível fóssil que o biocombustível substitui e a do próprio biocombustível. Ou seja: quanto mais alta a nota, mais o etanol daquela usina emite a menos que o fóssil de referência.

Baixamos a planilha de certificados válidos da ANP, atualizada em 29 de setembro de 2026, e separamos o etanol hidratado (as contas de quantidade, faixa e mediana são nossas):

Etanol hidratado Certificados Nota mais baixa e mais alta Nota do meio (mediana)
Cana-de-açúcar, 1ª geração 263 32,77 a 70,93 61,37
Milho 11 38,64 a 69,99 57,78

Todas as usinas certificadas ficam abaixo do fóssil, mas a diferença entre elas é grande: a melhor nota de cana é mais que o dobro da pior. Na bomba, você não sabe de qual usina veio o seu etanol.

Uso da terra: a parte que o RenovaBio não conta

Se a demanda por etanol cresce, a lavoura cresce, e em algum lugar vegetação nativa pode virar plantação, liberando carbono do solo e das plantas. É o efeito indireto da mudança de uso da terra (ILUC, na sigla em inglês). O ICCT observa que o RenovaBio não conta esse efeito e o soma por conta própria. Ele não é medido diretamente: sai de modelos econômicos, que discordam entre si.

  • Cana brasileira: 8,7 g CO2e/MJ no valor da ICAO (aviação civil internacional), o que o ICCT usou; 13,6 g pelo modelo GLOBIOM; 14,2 g pelo órgão ambiental da Califórnia (CARB).
  • Milho: não há avaliação publicada para o milho brasileiro. O ICCT usou o valor do milho dos Estados Unidos, 25,1 g. Pelos valores publicados, o milho tende a ter impacto de uso da terra maior que a cana, mas sem número brasileiro a comparação fica em aberto.

Esse ponto pesa porque o milho está crescendo. O ICCT projetou a participação do milho no etanol hidratado subindo de 9% em 2020 para 18% em 2027, e a EPE já contou 21% no etanol total em 2024. Com mais milho e o ILUC incluído, a intensidade média do etanol hidratado ao longo da vida de um carro vendido em 2023 fica em 42,1 g CO2e/MJ no ICCT, contra os 22,73 g da EPE sem ILUC. O próprio ICCT recomenda incluir o uso indireto da terra no RenovaBio.

Poço à roda × ciclo de vida: por que a distância muda

  • Poço à roda: só a energia. Produzir o combustível ou a eletricidade e usá-la no carro.
  • Ciclo de vida: poço à roda mais a fabricação do carro e da bateria e a manutenção, espalhadas pelos km da vida útil (no ICCT, 288 mil km em 22 anos).

No poço à roda, o elétrico abre muita vantagem, porque gasta pouca energia. Fizemos a conta com o consumo da etiqueta do Inmetro (PBEV 2026). O BYD Dolphin Mini GL gasta 0,39 MJ por km. O Chevrolet Onix LT 1.0 Turbo automático faz 9,5 km/l de etanol no combinado (55% cidade e 45% estrada, como nos outros guias do site), o que dá 2,25 MJ por km, quase seis vezes mais energia.

No ciclo de vida, a vantagem diminui, porque fabricar o carro elétrico e a bateria emite mais que fabricar um carro a combustão. O ICCT não publica essa divisão; fizemos uma conta aproximada com os valores arredondados das tabelas dele (consumo × intensidade do combustível). No flex compacto só com etanol, o combustível responde por cerca de 80 dos 107 g por km, uns 26 g deles do uso indireto da terra. No elétrico compacto, a eletricidade fica perto de 20 dos 55 g; o resto é carro, bateria e manutenção. Por isso a diferença, de quatro a seis vezes só na energia (conforme a base, ICCT ou a nossa conta), cai para cerca de duas vezes no ciclo de vida.

A tabela: quanto cada cenário emite em 12 mil km por ano

Primeiro, o ciclo de vida do ICCT (carros vendidos em 2023). A coluna de 12 mil km é conta nossa.

Cenário (ICCT, ciclo de vida) g CO2e por km Em 12 mil km Fonte
Elétrico compacto 55 660 kg ICCT, p. 16
Elétrico compacto, com uma troca de bateria 67 804 kg ICCT, p. 16
Híbrido flex médio, só etanol 97 1.164 kg ICCT, p. 17
Flex compacto, só etanol 107 1.284 kg ICCT, p. 16
Flex compacto, mistura média de gasolina e etanol 155 1.860 kg ICCT, p. 16
Flex compacto, só gasolina C 186 2.232 kg ICCT, p. 16

Agora só a energia (poço à roda), com carros vendidos hoje, etiqueta do Inmetro e intensidades de 2024 da EPE. Sem fabricação nem manutenção.

Cenário (poço à roda, conta nossa) g CO2e por km Em 12 mil km Fonte
BYD Dolphin Mini GL, rede elétrica 8,3 100 kg PBEV 2026 + EPE
Toyota Yaris Cross Hybrid, só etanol 40,8 489 kg PBEV 2026 + EPE
Chevrolet Onix 1.0 Turbo, só etanol 51,1 613 kg PBEV 2026 + EPE
Onix, só etanol, somando o uso indireto da terra do ICCT 80,7 968 kg PBEV 2026 + EPE + ICCT
Yaris Cross Hybrid, só gasolina E30 128,1 1.538 kg PBEV 2026 + EPE
Onix, só gasolina E30 158,7 1.905 kg PBEV 2026 + EPE

E o híbrido flex a etanol?

É a combinação a combustão que mais se aproxima do elétrico, porque junta o combustível mais limpo com o motor que gasta menos. Pelo ICCT, um híbrido do segmento médio rodando só com etanol fica em 97 g CO2e por km no ciclo de vida: 10% abaixo do flex comum só com etanol, mas 85% acima do elétrico do mesmo segmento (52 g).

Na nossa conta do poço à roda, o Yaris Cross Hybrid no etanol (11,9 km/l combinados) fica em 40,8 g por km, cerca de cinco vezes o Dolphin Mini.

Dois cuidados. O ICCT avisa que havia poucos híbridos flex à venda e nenhum no segmento médio, então os 97 g descrevem uma configuração que não existia nesse segmento. E o mesmo híbrido só com gasolina C sobe para 158 g por km, acima do flex comum com a mistura média (155 g). O plug-in ficou sem conta com etanol porque nenhum modelo aceitava etanol hidratado.

Onde há incerteza

  • Uso indireto da terra: os valores para a cana vão de 8,7 a 14,2 g por MJ conforme o modelo, e para o milho brasileiro não há avaliação publicada. É uma das maiores fontes de dúvida no número do etanol.
  • Cana × milho: o etanol de milho cresce, e a média do país muda com ele.
  • Quanto etanol o dono do flex põe de fato: o ICCT lembra que rodar a vida inteira só com etanol não representa o uso médio. Por isso a comparação principal dele é a mistura média (155 g por km), e não a linha de 107 g.
  • Eletricidade: o fator da rede varia por mês e por ano, como mostramos no guia Matriz elétrica brasileira e carro elétrico. Com o fator do ICCT, o Dolphin Mini vai a 9,0 g por km, ainda muito abaixo do etanol.
  • Data: o ICCT é de 2023, com gasolina E27; a EPE, de 2024. A ordem entre os cenários é a mesma nas duas.

O que fazer com isso

  • Se você tem um flex e não vai trocar de carro agora: abastecer com etanol é a forma mais simples de cortar emissões (cerca de 1,3 tonelada por ano no Onix da nossa conta). Para saber se compensa no bolso na sua cidade, use a calculadora de custo por km.
  • Se vai comprar um carro e quer emitir o mínimo: o elétrico ganha nas duas contas, no poço à roda e no ciclo de vida. O caminho completo, com a fabricação da bateria, está no guia Carro elétrico polui menos?.
  • Se não tem onde carregar: o híbrido flex é a opção a combustão mais próxima do elétrico, desde que você use etanol de fato.

Valores conferidos em outubro de 2026.

Fontes e Referências

  • ICCT, “Life-cycle greenhouse gas emissions of combustion engine and electric passenger cars in Brazil”, outubro de 2023 (tabelas 6, 7 e 8; resultados nas p. 16 a 19): theicct.org
  • Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, Nota técnica “Intensidade de carbono dos energéticos para veículos pesados” (dados da Nota Técnica EPE/DPG/SDB/2025/03, ano-base 2024), publicada pelo MDIC: gov.br/mdic
  • ANP, RenovaBio, Certificados da Produção ou Importação Eficiente de Biocombustíveis válidos (planilha atualizada em 29/09/2026): gov.br/anp
  • ANP, apresentação “RenovaBio”, 3 de março de 2026 (certificação, Nota de Eficiência Energético-Ambiental, recorte de 19/02/2026): gov.br/anp
  • ANP, “Revendedores de combustíveis: ANP divulga orientações devido à chegada do E30 e B15”, 21/08/2025: gov.br/anp
  • Inmetro, Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), Tabela 2026: gov.br/inmetro

Consultas feitas em 4 e 5 de outubro de 2026.

Continue no capítulo 4: Sustentabilidade e Meio Ambiente

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