O elétrico emite menos. No estudo de ciclo de vida do ICCT (Conselho Internacional de Transporte Limpo) para o Brasil, que soma fabricação, combustível e uso, um carro compacto elétrico fica em 55 g de CO2 equivalente por km. O mesmo tipo de carro flex rodando a vida inteira só com etanol fica em 107 g, cerca do dobro.
Isso não faz do etanol um vilão. O etanol de cana é o combustível líquido mais limpo à venda no país: pelas contas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cada unidade de energia do etanol hidratado emite cerca de um quarto do que emite a gasolina pura. O que dá vantagem ao elétrico é outra coisa: ele gasta muito menos energia por km, e a eletricidade brasileira também é limpa. Fizemos a conta de quanto cada cenário emite em 12 mil km por ano.
Por que o etanol de cana emite pouco
O etanol também solta CO2 pelo escapamento. A diferença é a origem do carbono: na gasolina, ele estava guardado no petróleo; no etanol, foi tirado do ar pela cana enquanto ela crescia. Por isso os estudos de ciclo de vida, como o do ICCT, não contam o CO2 da queima do biocombustível: ele é compensado pelo que a planta absorveu ao crescer.
Sobram as emissões de produção: adubo e diesel na lavoura, usina, transporte até o posto. A EPE calculou essas emissões do poço à roda para o ano-base 2024. Os valores abaixo vêm de uma nota técnica da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva que reproduz a conta da EPE, publicada no site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC):
| Combustível | g CO2e por MJ, do poço à roda |
|---|---|
| Gasolina A (pura, sem etanol) | 87,4 |
| Gasolina C com 30% de etanol anidro (E30) | 72,53 |
| Etanol hidratado (o “etanol” da bomba) | 22,73 |
| Eletricidade da rede nacional (SIN), com perdas na rede | 21,3 |
O MJ (megajoule) é uma unidade de energia, então a tabela não depende do rendimento do carro. A EPE considera 79% de etanol de cana e 21% de milho na oferta de 2024. A gasolina comum vendida hoje é a E30: a mistura obrigatória de etanol anidro passou de 27% para 30% em 1º de agosto de 2025, segundo a ANP.
Por MJ, nessa conta da EPE, etanol e eletricidade quase empatam. A distância entre os carros aparece no consumo.
O que o RenovaBio mede: a nota de cada usina
O RenovaBio é a política nacional de biocombustíveis. A usina que adere preenche a RenovaCalc, calculadora oficial do programa, com dados da lavoura e da indústria; uma firma inspetora audita e a ANP publica o certificado, válido por 3 anos. Até fevereiro de 2026, 78% dos produtores de etanol autorizados pela ANP estavam certificados.
O resultado é a Nota de Eficiência Energético-Ambiental, em g de CO2e por MJ. Ela é a diferença entre a intensidade de carbono do combustível fóssil que o biocombustível substitui e a do próprio biocombustível. Ou seja: quanto mais alta a nota, mais o etanol daquela usina emite a menos que o fóssil de referência.
Baixamos a planilha de certificados válidos da ANP, atualizada em 29 de setembro de 2026, e separamos o etanol hidratado (as contas de quantidade, faixa e mediana são nossas):
| Etanol hidratado | Certificados | Nota mais baixa e mais alta | Nota do meio (mediana) |
|---|---|---|---|
| Cana-de-açúcar, 1ª geração | 263 | 32,77 a 70,93 | 61,37 |
| Milho | 11 | 38,64 a 69,99 | 57,78 |
Todas as usinas certificadas ficam abaixo do fóssil, mas a diferença entre elas é grande: a melhor nota de cana é mais que o dobro da pior. Na bomba, você não sabe de qual usina veio o seu etanol.
Uso da terra: a parte que o RenovaBio não conta
Se a demanda por etanol cresce, a lavoura cresce, e em algum lugar vegetação nativa pode virar plantação, liberando carbono do solo e das plantas. É o efeito indireto da mudança de uso da terra (ILUC, na sigla em inglês). O ICCT observa que o RenovaBio não conta esse efeito e o soma por conta própria. Ele não é medido diretamente: sai de modelos econômicos, que discordam entre si.
- Cana brasileira: 8,7 g CO2e/MJ no valor da ICAO (aviação civil internacional), o que o ICCT usou; 13,6 g pelo modelo GLOBIOM; 14,2 g pelo órgão ambiental da Califórnia (CARB).
- Milho: não há avaliação publicada para o milho brasileiro. O ICCT usou o valor do milho dos Estados Unidos, 25,1 g. Pelos valores publicados, o milho tende a ter impacto de uso da terra maior que a cana, mas sem número brasileiro a comparação fica em aberto.
Esse ponto pesa porque o milho está crescendo. O ICCT projetou a participação do milho no etanol hidratado subindo de 9% em 2020 para 18% em 2027, e a EPE já contou 21% no etanol total em 2024. Com mais milho e o ILUC incluído, a intensidade média do etanol hidratado ao longo da vida de um carro vendido em 2023 fica em 42,1 g CO2e/MJ no ICCT, contra os 22,73 g da EPE sem ILUC. O próprio ICCT recomenda incluir o uso indireto da terra no RenovaBio.
Poço à roda × ciclo de vida: por que a distância muda
- Poço à roda: só a energia. Produzir o combustível ou a eletricidade e usá-la no carro.
- Ciclo de vida: poço à roda mais a fabricação do carro e da bateria e a manutenção, espalhadas pelos km da vida útil (no ICCT, 288 mil km em 22 anos).
No poço à roda, o elétrico abre muita vantagem, porque gasta pouca energia. Fizemos a conta com o consumo da etiqueta do Inmetro (PBEV 2026). O BYD Dolphin Mini GL gasta 0,39 MJ por km. O Chevrolet Onix LT 1.0 Turbo automático faz 9,5 km/l de etanol no combinado (55% cidade e 45% estrada, como nos outros guias do site), o que dá 2,25 MJ por km, quase seis vezes mais energia.
No ciclo de vida, a vantagem diminui, porque fabricar o carro elétrico e a bateria emite mais que fabricar um carro a combustão. O ICCT não publica essa divisão; fizemos uma conta aproximada com os valores arredondados das tabelas dele (consumo × intensidade do combustível). No flex compacto só com etanol, o combustível responde por cerca de 80 dos 107 g por km, uns 26 g deles do uso indireto da terra. No elétrico compacto, a eletricidade fica perto de 20 dos 55 g; o resto é carro, bateria e manutenção. Por isso a diferença, de quatro a seis vezes só na energia (conforme a base, ICCT ou a nossa conta), cai para cerca de duas vezes no ciclo de vida.
A tabela: quanto cada cenário emite em 12 mil km por ano
Primeiro, o ciclo de vida do ICCT (carros vendidos em 2023). A coluna de 12 mil km é conta nossa.
| Cenário (ICCT, ciclo de vida) | g CO2e por km | Em 12 mil km | Fonte |
|---|---|---|---|
| Elétrico compacto | 55 | 660 kg | ICCT, p. 16 |
| Elétrico compacto, com uma troca de bateria | 67 | 804 kg | ICCT, p. 16 |
| Híbrido flex médio, só etanol | 97 | 1.164 kg | ICCT, p. 17 |
| Flex compacto, só etanol | 107 | 1.284 kg | ICCT, p. 16 |
| Flex compacto, mistura média de gasolina e etanol | 155 | 1.860 kg | ICCT, p. 16 |
| Flex compacto, só gasolina C | 186 | 2.232 kg | ICCT, p. 16 |
Agora só a energia (poço à roda), com carros vendidos hoje, etiqueta do Inmetro e intensidades de 2024 da EPE. Sem fabricação nem manutenção.
| Cenário (poço à roda, conta nossa) | g CO2e por km | Em 12 mil km | Fonte |
|---|---|---|---|
| BYD Dolphin Mini GL, rede elétrica | 8,3 | 100 kg | PBEV 2026 + EPE |
| Toyota Yaris Cross Hybrid, só etanol | 40,8 | 489 kg | PBEV 2026 + EPE |
| Chevrolet Onix 1.0 Turbo, só etanol | 51,1 | 613 kg | PBEV 2026 + EPE |
| Onix, só etanol, somando o uso indireto da terra do ICCT | 80,7 | 968 kg | PBEV 2026 + EPE + ICCT |
| Yaris Cross Hybrid, só gasolina E30 | 128,1 | 1.538 kg | PBEV 2026 + EPE |
| Onix, só gasolina E30 | 158,7 | 1.905 kg | PBEV 2026 + EPE |
E o híbrido flex a etanol?
É a combinação a combustão que mais se aproxima do elétrico, porque junta o combustível mais limpo com o motor que gasta menos. Pelo ICCT, um híbrido do segmento médio rodando só com etanol fica em 97 g CO2e por km no ciclo de vida: 10% abaixo do flex comum só com etanol, mas 85% acima do elétrico do mesmo segmento (52 g).
Na nossa conta do poço à roda, o Yaris Cross Hybrid no etanol (11,9 km/l combinados) fica em 40,8 g por km, cerca de cinco vezes o Dolphin Mini.
Dois cuidados. O ICCT avisa que havia poucos híbridos flex à venda e nenhum no segmento médio, então os 97 g descrevem uma configuração que não existia nesse segmento. E o mesmo híbrido só com gasolina C sobe para 158 g por km, acima do flex comum com a mistura média (155 g). O plug-in ficou sem conta com etanol porque nenhum modelo aceitava etanol hidratado.
Onde há incerteza
- Uso indireto da terra: os valores para a cana vão de 8,7 a 14,2 g por MJ conforme o modelo, e para o milho brasileiro não há avaliação publicada. É uma das maiores fontes de dúvida no número do etanol.
- Cana × milho: o etanol de milho cresce, e a média do país muda com ele.
- Quanto etanol o dono do flex põe de fato: o ICCT lembra que rodar a vida inteira só com etanol não representa o uso médio. Por isso a comparação principal dele é a mistura média (155 g por km), e não a linha de 107 g.
- Eletricidade: o fator da rede varia por mês e por ano, como mostramos no guia Matriz elétrica brasileira e carro elétrico. Com o fator do ICCT, o Dolphin Mini vai a 9,0 g por km, ainda muito abaixo do etanol.
- Data: o ICCT é de 2023, com gasolina E27; a EPE, de 2024. A ordem entre os cenários é a mesma nas duas.
O que fazer com isso
- Se você tem um flex e não vai trocar de carro agora: abastecer com etanol é a forma mais simples de cortar emissões (cerca de 1,3 tonelada por ano no Onix da nossa conta). Para saber se compensa no bolso na sua cidade, use a calculadora de custo por km.
- Se vai comprar um carro e quer emitir o mínimo: o elétrico ganha nas duas contas, no poço à roda e no ciclo de vida. O caminho completo, com a fabricação da bateria, está no guia Carro elétrico polui menos?.
- Se não tem onde carregar: o híbrido flex é a opção a combustão mais próxima do elétrico, desde que você use etanol de fato.
Valores conferidos em outubro de 2026.
Fontes e Referências
- ICCT, “Life-cycle greenhouse gas emissions of combustion engine and electric passenger cars in Brazil”, outubro de 2023 (tabelas 6, 7 e 8; resultados nas p. 16 a 19): theicct.org
- Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, Nota técnica “Intensidade de carbono dos energéticos para veículos pesados” (dados da Nota Técnica EPE/DPG/SDB/2025/03, ano-base 2024), publicada pelo MDIC: gov.br/mdic
- ANP, RenovaBio, Certificados da Produção ou Importação Eficiente de Biocombustíveis válidos (planilha atualizada em 29/09/2026): gov.br/anp
- ANP, apresentação “RenovaBio”, 3 de março de 2026 (certificação, Nota de Eficiência Energético-Ambiental, recorte de 19/02/2026): gov.br/anp
- ANP, “Revendedores de combustíveis: ANP divulga orientações devido à chegada do E30 e B15”, 21/08/2025: gov.br/anp
- Inmetro, Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), Tabela 2026: gov.br/inmetro
Consultas feitas em 4 e 5 de outubro de 2026.