V2L é a função que tira energia da bateria do carro elétrico para ligar aparelhos: uma geladeira na falta de luz ou, como exemplo, um notebook no camping e uma ferramenta longe da tomada. No Brasil ela já vem em vários modelos. Pelos manuais oficiais, o BYD Dolphin Mini entrega até 2,2 kW, o Han EV e o Sealion 7 chegam a 3,3 kW e o Song Pro DM-i, que é híbrido plug-in, a 6 kW.
Já o V2G, em que o carro devolve energia para a rede da distribuidora, não está liberado para o consumidor. Pela nossa leitura da regra da ANEEL, a injeção de energia na rede a partir do veículo é vedada. Usar o carro para alimentar a própria casa (o V2H) não aparece como proibido, mas só com equipamento próprio e projeto de eletricista ou engenheiro habilitado.
Fizemos a conta: com 80% da bateria, um Dolphin Mini GL guarda energia para uma geladeira de 410 litros por cerca de 13 dias, ou para o consumo de uma casa média brasileira por cerca de 4 dias. É um teto teórico, sem contar perdas.
V2L, V2H e V2G: o que muda entre eles
As três siglas dizem para onde vai a energia que sai da bateria. O “V” é de veículo (vehicle, em inglês).
- V2L (vehicle to load, do veículo para a carga): o carro alimenta aparelhos ligados direto nele, por um adaptador encaixado na porta de recarga ou por uma tomada na cabine. A BYD chama a função de VTOL nas fichas técnicas. É o que já existe nos carros vendidos aqui.
- V2H (vehicle to home, do veículo para a casa): o carro alimenta os circuitos da casa, pelo quadro de luz. Precisa de um equipamento bidirecional instalado e de um projeto que isole a casa da rede da distribuidora.
- V2G (vehicle to grid, do veículo para a rede): o carro manda energia para a rede pública, como uma placa solar faz com o excedente. É o que a regra brasileira veda hoje, pela nossa leitura.
No V2L, a energia passa por um conversor do próprio carro, que transforma a corrente contínua da bateria em corrente alternada, a mesma da tomada de casa. Se quiser entender o caminho inverso, da tomada até a bateria, ele está no nosso guia como funciona um carro elétrico.
Quais carros vendidos no Brasil têm V2L
Montamos a tabela só com o que está escrito na ficha técnica, no catálogo ou no manual do proprietário publicado pela montadora no site brasileiro. Quando o documento confirma a função mas não diz a potência, a tabela mostra isso.
| Modelo | Tipo | Potência máxima do V2L | Documento oficial |
|---|---|---|---|
| BYD Dolphin Mini (GL e GS) | Elétrico | 2,2 kW | Manual do proprietário e ficha 2026 |
| BYD Dolphin | Elétrico | 2,2 kW | Manual do proprietário (ed. 08/2025) |
| BYD Han EV | Elétrico | 3,3 kW (220 V, 16 A) | Manual do proprietário (ed. 08/2025) |
| BYD Sealion 7 | Elétrico | 3,3 kW | Manual do proprietário (ed. 04/2026) |
| BYD Song Pro DM-i | Híbrido plug-in | 6 kW em 220 V | Manual do proprietário (ed. 08/2026) |
| GWM Tank 300 PHEV | Híbrido plug-in | 3,3 kW em 220 V | Ficha técnica |
| GWM Wey 07 | Híbrido plug-in | 3,3 kW | Catálogo |
| Hyundai Ioniq 5 | Elétrico | Não informada | Catálogo 2025 e manual |
| Kia EV9 | Elétrico | Não informada | Itens de série (adaptador V2L) |
As fichas 2026 da BYD também marcam a função de descarga no Seal, no Yuan Pro, no Yuan Plus, no Tan, no Shark e numa das versões do King, mas não achamos a potência nos manuais desses modelos. Se a função pesa na sua escolha, peça à concessionária o número em kW e pergunte se o adaptador vem com o carro, porque no manual do Dolphin Mini ele aparece marcado com asterisco.
Os híbridos plug-in entram na tabela porque também têm bateria de tração. A diferença entre eles e o 100% elétrico está no nosso guia elétrico, híbrido ou híbrido plug-in.
O que dá para ligar no V2L
A regra é somar os watts. Cada aparelho tem a potência escrita na etiqueta, na plaqueta de trás ou na fonte. Some tudo o que vai ficar ligado ao mesmo tempo e compare com o limite do carro. No Dolphin Mini, o limite é 2.200 W (2,2 kW).
- Geladeira: o Inmetro publica o consumo de cada modelo. Uma Consul frost-free de 410 litros (CRM50) gasta 53,2 kWh por mês na etiqueta, uma média de 74 W ao longo do dia. Cabe com folga, mas o motor da geladeira puxa mais na partida, e o manual do Ioniq 5 avisa que aparelhos com pico de partida podem não funcionar mesmo abaixo do limite.
- Notebook: a potência está na fonte. Exemplo ilustrativo: uma fonte de 65 W usaria 3% do limite do Dolphin Mini.
- Ferramenta: furadeira, serra e lixadeira também trazem a potência na plaqueta. Exemplo ilustrativo: uma furadeira de 600 W, somada à média da geladeira, fica abaixo dos 2.200 W.
- Chuveiro elétrico, forno e aquecedor: confira a etiqueta antes de ligar. Se a soma passar do limite, o carro corta a energia, como descreve o manual do Ioniq 5.
Os manuais trazem outras regras de uso. O da BYD recomenda usar o V2L com a bateria bem carregada e pede para não começar a descarga abaixo de 15%. O da Hyundai proíbe equipamento médico (a energia pode ser interrompida conforme as condições do carro), pede no máximo dois cabos de extensão ou tomadas múltiplas e avisa que o uso repetido do V2L pode reduzir a vida útil da bateria. Se a durabilidade da bateria preocupa você, veja o nosso guia sobre quanto dura a bateria de um carro elétrico.
Quanto tempo o Dolphin Mini segura uma geladeira e uma casa
Usamos o Dolphin Mini porque ele é o carro de referência dos nossos guias e porque a potência do V2L dele está no manual. A conta usa a bateria informada pela BYD, a etiqueta do Inmetro para a geladeira e o consumo residencial médio do Brasil medido pela EPE, a empresa de pesquisa energética do governo federal.
A conta da casa mostra quanta energia cabe na bateria, não que o carro liga a casa inteira. A média da EPE esconde os picos: em certos momentos do dia, a casa liga vários aparelhos juntos, e a soma pode passar dos 2,2 kW. E o V2L só alimenta o que estiver plugado no adaptador. Para manter só a geladeira numa queda de energia, a bateria dá folga.
A média de agosto de 2026 foi a maior da série da EPE, iniciada em 2004. Casa que gasta menos tem mais horas de bateria; casa que gasta mais, menos.
Por que não existe V2G para o consumidor no Brasil
Quem regula o assunto é a ANEEL, na Resolução Normativa 1.000, de 2021, que reúne as regras de distribuição de energia. No capítulo sobre recarga de veículos elétricos, o artigo 555 diz que “é vedada a injeção de energia elétrica na rede de distribuição a partir dos veículos elétricos e a participação no sistema de compensação de energia elétrica de microgeração e minigeração distribuída”.
Pela nossa leitura, isso fecha as duas portas do V2G. O carro não pode mandar energia para a rede nem entrar no sistema de compensação, aquele em que quem tem placa solar empresta o excedente à distribuidora e ganha créditos na conta. Uma bateria de carro, carregada à noite, não vira crédito de energia.
O mesmo artigo tem uma exceção, no parágrafo único: a proibição “não se aplica ao fluxo bidirecional restrito à mesma unidade consumidora”. Entendemos que a energia pode ir e voltar entre o carro e a casa, desde que não saia para a rede. É o espaço do V2H. A resolução não traz regra técnica específica para esse equipamento. O que ela traz são as obrigações gerais: avisar a distribuidora antes se a instalação de recarga pedir aumento de carga ou mudança de tensão (artigo 550), seguir as normas e os padrões da distribuidora (artigo 553) e, para qualquer geração ligada em paralelo com a rede, pôr placa de advertência no padrão de entrada (artigo 30).
Lemos o texto compilado da resolução, com alterações até janeiro de 2026. Não somos advogados: em caso de dúvida, confirme com a distribuidora. Se a ANEEL mudar a regra, este guia será atualizado.
Segurança: o que não fazer
Os manuais da BYD e da Hyundai somam outras regras de bom senso:
- Não use o V2L com conector, cabo ou porta de recarga molhados, sujos, rachados ou com ferrugem.
- Não toque nos terminais metálicos durante a descarga e pare na hora se sentir cheiro estranho ou ver fumaça.
- Com risco de raio, não use o V2L fora do carro (manual do Ioniq 5).
- Use aparelhos com certificação e plugue com aterramento, no padrão brasileiro.
- Não ligue chaleira, torradeira ou ferro dentro do carro (manual do Ioniq 5).
Se a ideia é ter o carro como reserva da casa, ligado ao quadro de luz, isso é V2H: peça projeto e ART a um eletricista ou engenheiro habilitado e confirme com a distribuidora o que precisa ser comunicado. O circuito de recarga segue a mesma lógica, como mostramos no guia de wallbox.
Vale a pena ter V2L?
Para quem acampa, trabalha em obra ou mora onde a luz cai com frequência, vale. Com 2,2 kW, o Dolphin Mini mantém uma geladeira por dias e ainda tem margem para outros aparelhos, desde que você some os watts. Quem precisa de mais potência ao mesmo tempo deve olhar os modelos de 3,3 kW e 6 kW da tabela.
Se você imaginava vender energia do carro para a distribuidora, ainda não dá. E carro ligado à casa toda é obra elétrica, com projeto e profissional habilitado.
Valores conferidos em outubro de 2026.
Fontes e Referências
- BYD Brasil: Manual do Proprietário Dolphin Mini (V2L de 2,2 kW, adaptador para o Brasil)
- BYD Brasil: ficha técnica Dolphin Mini 2026 (bateria e função de descarga)
- BYD Brasil: Manual do Proprietário Dolphin
- BYD Brasil: Manual do Proprietário Han EV
- BYD Brasil: Manual do Proprietário Sealion 7 EV
- BYD Brasil: Manual do Proprietário Song Pro DM-i
- GWM Brasil: ficha técnica Tank 300 PHEV
- GWM Brasil: catálogo Wey 07
- Hyundai Brasil: catálogo Ioniq 5 2025 e manual do proprietário Ioniq 5
- Kia Brasil: itens de série EV9
- ANEEL: Resolução Normativa 1.000/2021, texto compilado (arts. 30, 550, 553 e 555)
- Inmetro: tabela PBE de refrigeradores (atualização de 31/12/2025)
- EPE: Resenha Mensal do Mercado de Energia Elétrica, setembro de 2026 (base agosto)
Consultas feitas em 5 de outubro de 2026.