3.6

Viajar de carro elétrico: como planejar a recarga na estrada

De São Paulo ao Rio pela Dutra, um Dolphin Mini faz de 2 a 3 paradas e gasta cerca de R$ 110 de energia, contra R$ 154 a R$ 174 de um Onix. Veja a conta, os carregadores no Brasil e um checklist antes de sair.
Por Atualizado em 10 min de leitura
Custo de energia de São Paulo ao Rio pela Dutra: Dolphin Mini GL R$ 109,81, Dolphin Mini GS R$ 110,67, Onix com etanol R$ 153,98 e com gasolina R$ 173,98

Neste guia

Dá para viajar de carro elétrico no Brasil, desde que você planeje as paradas antes de sair. Em agosto de 2026 o país tinha 29.866 pontos de recarga públicos e semipúblicos, 11.397 deles de recarga rápida, segundo levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) com a plataforma Tupi.

O método é simples: calcule pela autonomia de estrada, que é menor que a da etiqueta, saia com a bateria cheia, não deixe a carga cair abaixo de 20% e use o carregador rápido de 20% a 80%. Fizemos a conta de uma viagem de São Paulo ao Rio pela Via Dutra, 406 km: um BYD Dolphin Mini GL para três vezes e passa no mínimo 1 h 24 min carregando; o GS para duas vezes, no mínimo 58 minutos. Com o carro carregado em casa e o kWh do carregador rápido a R$ 2,00 (exemplo), a energia da viagem sai perto de R$ 110, contra R$ 174 de gasolina num Chevrolet Onix.

Quantos eletropostos existem e onde estão

O levantamento da ABVE e da Tupi, com dados de agosto de 2026, conta 29.866 pontos de recarga públicos e semipúblicos. Desses, 18.469 são de recarga lenta (AC) e 11.397 são rápidos (DC), os que interessam na estrada. Um ano antes eram 3.855 pontos rápidos: o número quase triplicou em 12 meses.

A distribuição ainda é desigual. Pela contagem provisória da ABVE, 1.911 municípios têm algum ponto de recarga e 1.156 têm pelo menos um rápido. São Paulo concentra 7.864 pontos, seguido por Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais. O Sudeste tem 42,4% da rede, mas só 27,9% dos pontos de lá são rápidos. No Norte, a proporção de rápidos chega a 58,1%.

Esses números dizem quanto existe, não onde fica na sua rota. Por isso a rota se confere trecho a trecho antes de sair.

Corredores elétricos nas rodovias

“Corredor elétrico” é o nome dado a uma sequência de eletropostos ao longo de uma rodovia, espaçados para que o carro vá de um ao outro. Cada iniciativa tem dono e alcance diferentes.

Um exemplo com dados oficiais é o Corredor Elétrico Catarinense, da Celesc, distribuidora de energia de Santa Catarina. Em comunicado de 26 de novembro de 2024, a empresa informou ter 35 eletropostos em trajetos que cruzam o estado e anunciou a meta de chegar a 100 municípios ao longo de 2025, com estações a cada 50 km em média. Não encontramos um balanço oficial de 2026 dizendo se a meta foi cumprida.

Na Via Dutra, a concessionária RioSP, do grupo Motiva, administra 626 km: a BR-116 entre São Paulo e Seropédica (RJ) e a BR-101 entre Ubatuba (SP) e o Rio. Não encontramos corredor elétrico na Dutra: a página de pontos de parada da concessionária, que consultamos em outubro de 2026, lista borracharias, mecânicas e auto elétricas, mas nada sobre recarga de carro elétrico. Quem mostra onde carregar, nesse caso, são os aplicativos.

Aplicativos para achar e pagar a recarga

Nas dicas de viagem que a ABVE divulgou em julho de 2026, dois aplicativos aparecem para localizar pontos e planejar as paradas pela autonomia do carro: o PlugShare, um mapa colaborativo de eletropostos, e o ABRP (A Better Routeplanner), que monta a rota com as paradas de recarga.

Além deles, cada rede de recarga costuma ter o próprio aplicativo, e é por ele que você libera o carregador e paga. A mesma orientação da ABVE recomenda baixar antes os aplicativos das redes que estão na sua rota, fazer o cadastro e configurar o pagamento em casa. Na estrada, o sinal de celular pode não ajudar.

O preço do kWh também aparece no aplicativo. Pela regra da ANEEL, a recarga tem preço livremente negociado, e ele muda de uma rede para outra e de um ponto para outro.

Como planejar a recarga na estrada

1. Use a autonomia de estrada, não a da etiqueta

A autonomia do Inmetro mistura cidade e estrada. Na estrada o elétrico gasta mais, porque não aproveita tanto a frenagem regenerativa e o arrasto do ar cresce com a velocidade. No nosso post sobre autonomia real × autonomia do Inmetro, estimamos a partir dos números do próprio Inmetro: o Dolphin Mini GL, de 224 km na etiqueta, faz cerca de 187 km no percurso de estrada. Pelo mesmo método, o GS, de 280 km, faz cerca de 230 km.

Esse percurso de laboratório não passa de uns 96 km/h. A 110 km/h, o limite das rodovias de pista dupla, o carro faz menos. Trate a autonomia de estrada como teto.

2. Deixe uma margem de 20%

Maurício Barros, diretor da Associação Brasileira dos Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores (Abravei), em dicas divulgadas pela ABVE, aconselha nunca deixar a carga cair abaixo de 20%. Se o carro faz uns 300 km com uma carga, a primeira parada fica entre 230 e 250 km. E, havendo dois eletropostos próximos, pare no primeiro: se ele estiver com defeito ou ocupado, sobra bateria para chegar ao seguinte.

3. Carregue de 20% a 80% no rápido

No carregador rápido, a potência cai quando a bateria se aproxima do cheio. Por isso os últimos 20% são os mais lentos, e na estrada compensa carregar até uns 80% e seguir. O tempo mínimo é a energia que entra dividida pela potência máxima que o carro aceita em corrente contínua. Pela ficha técnica da BYD, são 30 kW no Dolphin Mini GL e 40 kW no GS. A ficha não traz a curva de recarga, então os tempos abaixo são o mínimo teórico: conte com mais. Explicamos a conta no guia de recarga, e você pode refazer com o seu carro na calculadora de tempo de recarga.

A conta: São Paulo → Rio de carro elétrico

Pegamos a distância da Via Dutra no Sistema Nacional de Viação, a tabela oficial de rodovias do DNIT (versão de julho de 2026): 231,6 km da Marginal Tietê até a divisa com o Rio e mais 174,8 km da divisa até o Trevo das Missões, na entrada da cidade do Rio. São 406,4 km.

Premissas: saída com 100% carregado em casa, chegada a cada parada com 20%, recarga rápida de 20% a 80% e, na última parada, só o necessário para chegar com uns 20%, arredondado para cima. Os quilômetros das paradas são os ideais; na vida real você para no eletroposto que estiver um pouco antes.

Etapa Dolphin Mini GL (187 km de estrada) Dolphin Mini GS (230 km de estrada)
1ª parada km 150, de 20% a 80%, 36 min km 184, de 20% a 80%, 35 min
2ª parada km 262, de 20% a 80%, 36 min km 321, de 20% a 60%, 23 min
3ª parada km 374, de 20% a 40%, 12 min não precisa
Total carregando (mínimo) 1 h 24 min 58 min
Chega ao Rio com cerca de 23% cerca de 23%

Os R$ 2,00 por kWh no carregador rápido são só um exemplo. Os R$ 1,10 em casa são uma estimativa nossa da tarifa média com impostos; o seu valor está na sua conta de luz, como mostramos em quanto custa carregar um carro elétrico em casa. A conta também ignora as perdas na recarga, que fazem o kWh pago ser um pouco maior que o que entra na bateria.

O dinheiro favorece o elétrico; o relógio, não. O Onix faz a viagem sem parar para abastecer. O GL soma no mínimo 1 h 24 min de recarga, sem contar o desvio até o eletroposto e uma eventual fila. O GS, com bateria maior e recarga mais potente, fica perto de uma hora, que pode coincidir com uma parada para refeição.

E se o carro render menos que a estimativa, por velocidade alta ou ar-condicionado no máximo? Numa hipótese nossa, sem fonte, de 20% a menos, o GL passaria a fazer uns 150 km de estrada e precisaria de quatro paradas. Vale observar o consumo no painel nas primeiras horas e refazer o plano se ele estiver pior que o previsto.

Checklist antes de sair

  1. Bateria cheia na saída. Carregar em casa, na véspera, é o kWh mais barato da viagem.
  2. Rota com as paradas marcadas. Use a autonomia de estrada do seu carro, a margem de 20% e um ponto reserva antes de cada parada principal.
  3. Conector e potência de cada eletroposto. Confira no aplicativo se o ponto tem o conector do seu carro (segundo relatório do Inmetro de 2024, o padrão Tipo 2/CCS2 está em quase todos os eletropostos do país) e qual potência entrega.
  4. Aplicativos instalados, cadastro feito e pagamento configurado para cada rede da rota.
  5. Status dos pontos no dia. Veja no aplicativo se o carregador está funcionando e os comentários recentes de quem passou por lá.
  6. Pneus calibrados com a pressão do manual e bagageiro de teto só se precisar.
  7. Carregador portátil do carro na mala, para emergência. Nas mesmas dicas divulgadas pela ABVE, Maurício Barros lembra que ele repõe, em média, 3% a 5% da bateria por hora e que não se deve usar adaptador para ligá-lo em tomada de capacidade menor.
  8. Horário. Saia em horário de menos movimento: além do trânsito, diminui a chance de fila no eletroposto em feriado e férias.

Vale a pena viajar de elétrico?

Se você viaja algumas vezes por ano em rotas com recarga rápida no caminho, sim: com o carro carregado em casa e duas ou três paradas planejadas, a energia custa menos que a gasolina ou o etanol, e você paga a diferença em tempo. Quanto maior a bateria e a potência de recarga rápida do carro, menos você para. A tabela de autonomia dos carros elétricos ajuda a comparar.

Se você vive na estrada, em rotas longas do interior, ou não tem como carregar em casa, o tempo pesa mais. Aí vale mapear a rota no aplicativo antes da compra.

Valores conferidos em outubro de 2026.

Fontes e Referências

  • ABVE, “Recarga rápida (DC) quase triplica em 12 meses e já responde por 38% da rede”, dados de agosto de 2026, publicado em 28/09/2026: abve.org.br
  • ABVE, “Vai viajar de carro elétrico? Cinco dicas básicas de quem fez a maior viagem da América do Sul”, 15/07/2026: abve.org.br
  • Celesc e Governo de Santa Catarina, expansão do Corredor Elétrico Catarinense, comunicado republicado pela ABVE em 27/11/2024: abve.org.br
  • RioSP (Motiva), “Sobre a RioSP” (extensão e trechos da concessão): rodovias.motiva.com.br e pontos de parada: rodovias.motiva.com.br
  • DNIT, Sistema Nacional de Viação, planilha SNV versão 202607A (BR-116/SP e BR-116/RJ): gov.br/dnit
  • BYD Brasil, ficha técnica do Dolphin Mini 2026 (bateria e potência de recarga DC), atualização de 02/07/2026: byd.com
  • Inmetro, Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), Tabela 2026 (Dolphin Mini e Onix): gov.br/inmetro
  • Inmetro, Relatório de Análise de Impacto Regulatório sobre conectores para carregamento de veículos elétricos plug-in, 2024: gov.br/inmetro
  • ANEEL, recarga de veículos elétricos (Resolução Normativa 1.000/2021): gov.br/aneel
  • ANP, Levantamento de Preços de Combustíveis, semana de 27/09 a 03/10/2026: gov.br/anp

Consultas feitas em 5 de outubro de 2026.

Continue no capítulo 3: Baterias e Recarga

  1. 3.5
    Quanto dura a bateria de um carro elétrico e o que diz a garantia

    As garantias de bateria no Brasil ficam em 8 anos, com limites de 120 mil a 200 mil km. Os dados de 22.700 carros mostram perda média de…

  2. 3.4
    Carregar carro elétrico em condomínio: o que diz a lei e como pedir

    O Código Civil não fala em recarga, mas leis estaduais e municipais já garantem o direito em alguns lugares. Veja os quóruns possíveis, as opções de medição e…

  3. 3.3
    Wallbox: preço, instalação e quando vale a pena

    Um wallbox de 7,4 kW custa a partir de R$ 3.475,80, mas quem decide a velocidade é o carregador de bordo do carro. Veja preços, tempos de recarga,…